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A História do Funk no Brasil: Da Periferia ao Mainstream

Das Comunidades Carentes aos Palcos Internacionais - Uma Jornada de 50 Anos de Resistência Cultural (1970-2024)


As Raízes: Chegada e Adaptação (1970-1980)


O funk chegou ao Brasil no final dos anos 1970, desembarcando inicialmente nos bailes da Zona Sul do Rio de Janeiro. Diferentemente do que muitos imaginam, o gênero começou nas áreas nobres da cidade, com os "bailes da pesada", "black", "soul", "shaft" ou "funk", reproduzindo fielmente o som americano que já conquistava as periferias dos Estados Unidos.



A história da cena funk brasileira teve início com a fusão de duas equipes de som na década de 1970: a Som 2000, de Rômulo Costa, e a Guarani 2000, de Gilberto Guarani, que mais tarde dariam origem à lendária Furacão 2000. Com o crescimento da MPB e a ocupação dos espaços nobres por outros gêneros, o funk começou a adentrar os subúrbios cariocas com os "Bailes da Pesada", que aconteciam semanalmente.



A Nacionalização do Som (1980-1990)

Nos anos 1980, o funk praticado no Brasil ainda era predominantemente americano, com músicas em inglês influenciadas pelo Miami Bass, que trazia batidas mais aceleradas e letras erotizadas. O ponto de virada veio no final da década com um nome que se tornaria lenda: DJ Marlboro (Fernando Luís Mattos da Matta), que introduziu a bateria eletrônica no gênero e lançou, no final dos anos 1980, seu primeiro disco "Funk Brasil", com produções inteiramente nacionais.


Marlboro relata que a primeira música essencialmente "funk-brasileira" surgiu quase por acaso: "Eu fui testar a bateria e pensei, 'vamos fazer uma versão do Melô da Mulher Feia'. Acabou que, quando terminei a música, adoraram". Esta foi a semente de uma revolução cultural que transformaria para sempre o cenário musical brasileiro.



O Boom dos Anos 1990: Consolidação e Polêmica

A década de 1990 marcou a explosão definitiva do funk brasileiro. Com o crescimento do gênero, surgiram os controversos "bailes de corredor", onde os salões eram divididos em grupos rivais que trocavam agressões. Em 1995 e 1996, a violência nos bailes gerou CPIs na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e prisões de organizadores como José Claudio Braga (Zezinho) e Rômulo Costa.


Paradoxalmente, foi também nesta década que o funk começou a se espalhar por todo o país através da descoberta da imprensa, ganhando espaço em rádios e programas de TV. O programa da Furacão 2000 na Central Nacional de Televisão fazia sucesso, ganhando inclusive edição nacional.



A Virada do Milênio: Sensualidade e Popularização (2000-2010)

Os anos 2000 trouxeram uma guinada para o funk: ele deixou de ser exclusivo da periferia e invadiu casas noturnas, academias e programas de TV, atingindo as classes média e alta. As letras ganharam conotação mais sexual e romântica, com temas como relacionamentos amorosos e liberação sexual feminina.


A produtora Furacão 2000 atuou de forma crucial na popularização do gênero, lançando grandes nomes como Gaiola das Popozudas e Os Hawaianos. Em 2001, o Bonde do Tigrão conquistou o Brasil com mais de 250 mil cópias vendidas e disco de platina.


O Protagonismo Feminino

As mulheres adentraram o funk nesta época, com Tati Quebra-Barraco sendo pioneira com hits como "Boladona" e "Sou feia, mas tô na moda", falando de empoderamento, sexualidade e liberdade feminina. Este movimento abriu caminho para uma geração de funkeiras que redefiniriam o gênero nas décadas seguintes.



A Era da Diversificação (2010-presente)

O Funk Ostentação Paulista

Oriundo dos subúrbios de São Paulo, o funk ostentação ganhou espaço na mídia com os "rolezinhos" de 2013, exaltando carros de luxo, joias e dinheiro como símbolo do desejo de ascensão social das comunidades periféricas.


Anitta e a Globalização

A Furacão 2000 foi o primeiro contrato de Anitta (então MC Anitta) com a canção "Eu vou Ficar", lançada em 2010. Em 2012, veio o boom de Anitta com "Show das Poderosas" e a popularização do funk ao se aproximar de outros estilos musicais mais comerciais.


Os Subgêneros Contemporâneos

O funk atual se diversificou em várias vertentes: funk carioca (tradicional), funk ostentação, funk consciente (com denúncias sociais), funk pop (mais comercial) e funk proibidão (mais polêmico). Atualmente, o ritmo dominante é o 150 BPM, uma batida mais acelerada introduzida por DJs como Polyvox e Rennan da Penha.


A Importância Social nas Comunidades

Ferramenta de Transformação Social

O funk serve até hoje como uma das principais formas de distanciar o jovem periférico do crime, sendo uma maneira de expor as vivências do cotidiano das comunidades. Para as comunidades, o funk é responsável pela inserção dos jovens no meio artístico e no ativismo social.


Como relata o artista Demay: "O funk é uma grande fonte de inspiração para os jovens, principalmente para aqueles que vêm das comunidades. As letras e clipes representam uma ascensão social que, muitas vezes, parece inatingível".



Espaço de Identidade e Resistência

Segundo pesquisa do Dr. Danilo Cymrot da USP, "tanto frequentadores quanto organizadores de baile funk evidenciam uma associação entre a cor negra e o funk. O baile é um lugar em que o corpo negro pode se sentir à vontade, não sendo criminalizado".


Como cantaram MC Amilcka e Chocolate, o funk é "som de preto, de favelado", carregando o mesmo preconceito historicamente enfrentado pelo samba e pela capoeira.


Polêmicas e Resistências


O Preconceito Estrutural

Em 2017, uma sugestão de projeto de lei criminalizando o funk atingiu 20 mil assinaturas no Senado, classificando o gênero como "crime de saúde pública". Porém, a Comissão de Direitos Humanos decidiu não transformar a proposta em projeto, por ir contra cláusulas pétreas da Constituição.


DJ Marlboro viveu o preconceito na pele: "Eu tocava no subúrbio para 15 mil pessoas e não tinha um programa de televisão ou rádio. Meu movimento era imenso, mas invisível. Já uma boate com 200 pessoas na Zona Sul tinha televisão, rádio, jornal, tudo".


O Funk Hoje: Reconhecimento e Projeção Internacional

Em 2024, o funk ganhou reconhecimento oficial com a criação do Dia Nacional do Funk (12 de julho) e projeção internacional quando a ginasta Rebeca Andrade conquistou o ouro olímpico apresentando-se ao som de funks de Anitta e MC João.


O funk hoje movimenta milhões na indústria musical. O Canal Kondzilla é o principal canal brasileiro do YouTube, com mais de 36 milhões de inscritos, e o clipe "Bum bum tam tam" de MC Fioti, que mescla Bach com funk, aproxima-se de um bilhão de visualizações.



Principais Artistas Históricos

Pioneiros (1980-1990): DJ Marlboro, MC William e Duda, MC Marcinho


Era de Ouro (1990-2000): Claudinho & Buchecha, Mr. Catra, Latino, MC Galo, Márcio e Goró


Consolidação (2000-2010): Bonde do Tigrão, Tati Quebra-Barraco, Gaiola das Popozudas, Os Hawaianos


Era Moderna (2010-presente): Anitta, MC Fioti, MC João, Valesca Popozuda, MC Kevinho, DJ Rennan da Penha


Conclusão: Um Patrimônio Cultural Brasileiro

O funk brasileiro percorreu uma jornada extraordinária: das comunidades cariocas dos anos 1970 aos palcos internacionais de 2024. Mais que um gênero musical, tornou-se uma expressão cultural legítima que dá voz aos marginalizados, oferece perspectivas de ascensão social e representa a criatividade e resistência do povo brasileiro.


Apesar de todas as polêmicas e preconceitos enfrentados, o funk se consolidou como "produto cultural" que movimenta a economia criativa e oferece oportunidades reais de transformação social para jovens das periferias. Sua evolução reflete não apenas mudanças musicais, mas transformações sociais profundas na sociedade brasileira.


Hoje, quando ressoa nos alto-falantes de favelas, mansões, festivais internacionais e até mesmo nas Olimpíadas, o funk prova que a cultura popular brasileira tem força suficiente para transcender fronteiras e preconceitos, afirmando-se como patrimônio cultural genuinamente nacional.


Fontes:  

https://novabrasilfm.com.br/notas-musicais/conheca-a-historia-do-funk-no-brasil

https://www.politize.com.br/funk-no-brasil-e-polemicas/ - https://revistaesquinas.casperlibero.edu.br/arte-e-cultura/musica/funk-no-brasil-um-panorama-historico-da-ascensao-da-cultura-das-comunidades/