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lementina de Jesus: A Voz da Resistência e da Cultura Negra
Clementina de Jesus, conhecida como a Rainha Quelé ou Tina, foi muito mais do que uma simples cantora. Sua trajetória de vida se entrelaça com a história da resistência negra no Brasil e sua música se tornou um símbolo da luta e da ancestralidade afro-brasileira.
Nascida em circunstâncias modestas no sul do estado do Rio de Janeiro, em data incerta por volta de 7 de fevereiro de 1901, Clementina carregava consigo o legado de seus antepassados escravizados. Desde criança, absorveu os ritmos e cantos da cultura negra, aprendendo com sua mãe pontos de jongo, ladainhas e partidos-altos.
Sua vida tomou um novo rumo quando, já na maturidade e após décadas trabalhando como empregada doméstica, foi descoberta pelo produtor musical Hermínio Bello de Carvalho. Seu talento foi revelado em shows no Teatro Jovem e no famoso Zicartola, ao lado de grandes nomes da música brasileira da época.
Clementina não só conquistou os palcos brasileiros como também levou sua voz além-fronteiras, representando o Brasil em festivais internacionais na França e no Senegal. Sua presença era marcante, sua voz envolvente, capaz de capturar a essência da cultura afro-brasileira em cada nota.
A carreira de Clementina foi marcada por parcerias importantes com músicos como Pixinguinha, Paulinho da Viola, Clara Nunes, entre outros. Seu repertório abrangia desde o jongo e o partido-alto até cânticos de escravos, resgatando e preservando tradições ancestrais que muitas vezes estavam à beira do esquecimento.
Entre seus maiores sucessos, destacam-se músicas como "Marinheiro só", produzida por Caetano Veloso, e "Os Escravos de Jó", de Milton Nascimento. Sua interpretação única e carregada de emoção tornou cada canção um testemunho vivo da história e da cultura negra no Brasil.
Apesar de enfrentar dificuldades financeiras ao longo da vida, Clementina nunca perdeu sua essência e sua força. Sua humildade e autenticidade conquistaram o coração do público e o respeito de seus colegas de profissão. Mesmo após sua morte em 19 de julho de 1987, seu legado permanece vivo, ecoando em rodas de samba por todo o país.
Clementina de Jesus foi muito mais do que uma cantora. Ela foi uma guardiã da cultura negra, uma voz que ecoou a resistência e a ancestralidade do povo brasileiro. Sua contribuição para a música popular brasileira é imensurável, e seu nome será sempre lembrado como uma das grandes divas da nossa história musical.
Fonte: https://www.multirio.rj.gov.br/index.php/reportagens/15501-clementina-de-jesus,-samba-e-ancestralidade